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Ponto de Mutação

Santo André, eleita da vez.

SANTO ANDRÉ (BA) Sustentabilidade

Localizada há 25 km ao norte de Porto Seguro, entre o rio João de Tiba e o oceano Atlântico, Santo André tem acesso difícil. Para chegar, é necessário ir até Santa Cruz de Cabrália (via Eunápolis pela BR 101ou Porto Seguro). Em seguida, atravessa-se o rio de balsa. Fica na chamada Costa do Descobrimento, a porção de terra avistada por Pedro Álvares Cabral e retratada por Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei Dom João VI entre abril e maio de 1500.  


“Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é toda praia parma, muito chã e muito formosa.” O cenário da Mata Atlântica descrito por Caminha, pouco mudou. No final da tarde, as maritacas ainda voam em direção ao mangue. A cena é deslumbrante. Fazem parte ainda do cenário da pequena vila de pescadores, restingas, várzeas, brejos e recifes de corais. A população de índios tupiniquins que recebeu os portugueses dizimou-se e foi substituída pela de pescadores, mas é possível visitar uma tribo remanescente de seus rivais, os Pataxós, a apenas 12 km de Santo André. As casas, com exceção das portentosas moradas de estrangeiros vindos de outras partes do mundo e regiões do país, são simples, ainda que de alvenaria. Saneamento básico não há. A única venda, o Armazém do Maciel, abre contas para os visitantes, que pagam na saída. Apenas um estabelecimento aceita cartão de débito e todo mundo aceita cheque. 
 
MIND WALKING
“Um tempo tão diferente do nosso, que não é possível imaginar.” A frase é de Sonia Hoffman, interpretada por Liv Ullman em Ponto de Mutação, adaptação para o cinema de Bernt Amadeus Capra, sobre o livro homônimo do irmão, Fritjot Capra, mas poderia ter saído da boca da contemplativa jornalista Lea Penteado, cuja ligação com o vilarejo já soma quase duas décadas. Tudo começou quando o irmão, Vitor, abriu uma pousada com seu sócio, em 1994. A junção dos nomes dos proprietários, Vitor e Hugo, batizou o empreendimento em uma indireta homenagem ao escritor francês, autor de Os Miseráveis. A casa anexa à pousada ficou desocupada com o falecimento de Vitor, em 2001. Em 2004, Lea decidiu comprar o imóvel, que havia sido herdado pela mãe, e a se mudar para a vila. “É uma história de amor porque meu irmão amava aquele lugar”, disse, por telefone de São Paulo, de onde mantém um escritório de comunicação para atender clientes como o Rock In Rio e o cantor Roberto Carlos.

Para Lea, a realização da festa é um ponto positivo que vai ajudar a levar mais recursos para a cidade. “Se a gente conseguir que 10 pessoas que estão vindo voltem fora da temporada, já valerá a pena”, aposta. As opiniões de Lea Penteado em um blog (endereço) gerou uma polêmica sobre o impacto desse tipo de evento na região. Com quase mil convidados (praticamente o dobro população local), a “festa rave”, na verdade uma festa de réveillon, está sendo organizada por Carlos Henrique Vaz Ferreira, o Duty, um promotor de eventos paulistano famoso pela realização da Beach Ball e pela Solaris, outras grandes festas que ficaram famosas nas altas rodas.

A FESTA
Em Santo André, a festa vai acontecer na fazenda Amendoeiras, de propriedade do italiano Federico Idi, morador da região há mais de 20 anos. O preço dos convites, oferecidos somente para amigos e amigos dos amigos, sai de R$ 700 a R$ 1.000. Com apoio de empresas de bebidas e estrutura técnica das grandes festas as quais está acostumado o público de classe “AA”, como descreve seus convidados em carta de esclarecimento para os leitores do mesmo blog. O evento pretende colocar Santo André entre os destinos de alto padrão do público de classe alta das grandes capitais e competir com destinos mais popularizados como Trancoso e Itacaré.

Pelo menos durante o final do ano. A ideia de uma festa privada sob o nome Dolce Vita (inspirada no sucesso  “La Dolce VIta”, da espanhola Soraya Arnelas), surgiu em julho, quando Duty passava as férias com a namorada na Europa. Em agosto, disparou alguns e-mails para alguns “amigos-chave” e em setembro, assinou o contrato com o proprietário da fazenda. “Chamei alguns amigos para tocar e alguns vão vir de fora”, comenta sobre o line-up de “house e variações” que hoje conta com nomes como o sueco Dana Bergquist, o inglês Jody Wisternoff e o estoniano Dave Storm. O custo total das festas, que acontecem entre o dia 26 e o dia 2, está orçado em R$ 450 mil, o que promete movimentar a economia local como nunca antes. Novos móveis foram encomendados e outros reformados. “Um produtor local está lá desde agosto fazendo obras de melhoria, fizemos cerca para delimitar a área, solicitamos apoio da polícia militar e bombeiros, rota de fuga”, explica o produtor. Além do trabalho da polícia, mais duas empresas de segurança farão a segurança do evento. Além disso, são apoiadoras grandes marcas como a AmBev e a Vodka Absolut.

POLÊMICA
No entanto, a reserva antecipada da praia gerou reclamações apaixonadas de turistas. No mesmo blog, um turista que se identificou como Fernando Mineiro, protesta: “Já fui várias vezes a Sto André (sic) e amo o lugar. Infelizmente este ano não será possível, pois o local está alugado, reservado, pela Amendoeiras para 500 paulistas (que pena) que se dizem classe "AA" (mas somente no dinheiro.). Os demais turistas ficam, portanto, sem chance de passar o reveillon aí. O receio é que isto se torne uma rotina nos próximos anos”, pontuou em 11 de novembro.

Mas não é o que pensa a maioria dos moradores de lá. Formada em administração de empresas, Flávia mudou-se para a vila há quatro anos e meio para trabalhar no Resort Costa Brasilis, incorporado por um braço da CVC, maior operadora de turismo do país. Hoje, ela é parceira do grupo na administração do Spa Ruby, que oferece vários tipos de massagens e terapias alternativas para os hóspedes. “O trabalho aumentou. Estamos com 80% de ocupação”, comemora. Segundo ela, a transformação de Santo André em um destino de alto padrão é uma oportunidade. “Para mim é uma forma de me valorizar, de oferecer meu trabalho para pessoas que falam a mesma língua que eu. Para a comunidade é mais oportunidade de emprego”, diz.

Flávia é casada há quatro anos com Henrique Costa, que se mudou para Santo André quando estava “procurando uma alternativa à vida de São Paulo”. Contratado por uma empresa imobiliária para um trabalho na Costa do Descobrimento, percebeu que não havia ali nenhum serviço especializado em receptivo e traslados. Proprietário da Mangue Alto, além do serviço de transporte e receptivo, Henrique opera no ramo imobiliário. “Os preços de algumas casas são como de Trancoso”, diz.

Em outubro deste ano, ele tomou conhecimento dos planos para a festa de réveillon na fazenda Amendoeira. Hoje, sua empresa é parceira da Dolce Vita. Henrique analisa o momento de exploração comercial de Santo André com olhar agudo. “O que está gerando de renda é muito legal. É o começo de uma mudança. Sou formado em turismo e sei o quanto pode ser prejudicial. Temos de nos preparar para mudar.” 

TRANSFORMAÇÃO 
Fritjot Capra reproduz um trecho de I Ching, ou Livro da Mutações, criado na China há 3 mil anos na abertura de Ponto de Mutação. “Ao término de um período de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas não é gerado pela força. O movimento é natural, surge espontaneamente. Por esta razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.” De maneira pragmática, os danos causados ao meio ambiente por ocasião do grande número de visitantes na fazenda Amendoeiras serão gerenciados pela Reclicagem, uma empresa especializada em desenvolvimento sustentável. E se isso não é suficiente para amainar os ânimos da resistência, nada irá. Segundo alguns moradores, os protestos na internet geraram discussão na própria comunidade, que organizou um abaixo assinado de apoio à realização da festa. “Quem é contra são turistas que tem dinheiro, mas querem que Santo André continue um lugar sossegado. Não são moradores”, explica Carolina França Pinto, que administra uma ONG de educação musical para as crianças da comunidade. “Houve uma preocupação das pessoas sobre o ‘descobrimento’ de Santo André por outras pessoas".

VOCAÇÃO 
Mas não será a vocação de Santo André justamente permanecer um destino pouco descoberto? No início do século 18, colonos portugueses iniciaram o povoamento de São Pedro do Rio Grande. Mais tarde batizado de Belmonte do Jequitinhonha, em homenagem à cidade natal de Cabral e referência ao rio Jequitinhonha, que fica em suas proximidades. No século 19, já com o nome de Belmonte, evolui à categoria de cidade e ganhou certa influência com o desenvolvimento da cultura do cacau. Mas parou por aí. Hoje a nobreza decadente de suas fachadas, atraem poucos turistas e a economia local é baseada na agricultura. Localizada a menos de 50 km dali, Santo André continuou pacata. Não seria então a chegada de uma das rodovias mais importantes do país a trazer desenvolvimento à vila, como o fez com Eunápolis? Até o início da década de 1960, as várias rodovias que hoje integram a BR 101, que interliga o Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, não eram asfaltadas. Em geral, tratava-se de uma rede de estradas construídas por necessidade dos municípios locais. Em 1960, chegou a Eunápolis a empresa Bahia Construtora. Ao mesmo tempo em que trouxe as máquinas para a terraplanagem, a empresa trouxe 1500 empregados, dobrando população local. Eunápolis tornou-se um importante centro comercial e emancipou-se de Santa Cruz Cabrália. Sua população atual é de 100 mil habitantes. Tampouco parece ser esse o destino de Santo André. Outro município, localizado ao norte de Belmonte, com características geográficas bem similares a Santo André, talvez dê dicas do seu destino. Localizada também entre um rio e o mar, Canavieiras despertou para o turismo na década de 1980. Até então, sua economia era baseada na agricultura do cacau. Hoje a população de Canavieiras chega a 40 mil habitantes. Santo André, no entanto, está dentro de uma área de proteção ambiental e não tem para onde se expandir. “O terreno é caríssimo. Quem tem não quer vender.” 

Em janeiro, uma semana após a chamada “festa rave”, a AV Magazine vai desembarcar em Santo André. Com a ajuda de locais, moradores estrangeiros e turistas, vamos traçar um mapa das atrações da área e tentar descobrir qual é o caminho que a cidade vai seguir e descobrir onde cinge na realidade o seu ponto de mutação. 

Você pode colaborar deixando suas dicas nos comentários ou mandando e-mail para marcio@adoroviagem.com.br. 

Como chegar:

Por ar: Qualquer vôo para Porto Seguro. De Porto Seguro até a Balsa de
Santa Cruz Cabrália – 24Km. Travessia a balsa até Santo André – 10 min.
Por terra: Pela BR 101 até Eunápolis, e de lá à Santa Cruz Cabrália para pegar a balsa.

Ceia: A não ser que você seja um dos 1000 convidados da festa da fazenda Amendoeira, há uma variedade de singelos e sofisticados restaurantes e pousadas. Uma boa dia é o Casa Praia, um dos prediletos dos locais. “Casa Praia é o lugar mais charmoso. Tem bom gosto, fica de frente para a praia, a música é ótima”, conta Flávia Pereira.

A hora da virada:
Segundo Si, o costume local é ir para a praia que tem queima de fogos. “A festa é organizada pelos próprios ambulantes”.

Dia 1º:
Para relaxar, uma visita ao Spa Ruby, no Hotel Costa Brasilis que oferece técnicas diversificadas de relaxamento, massagem e meditação. Em seguira, é hora de curtir as praias e paisagens extraordinárias. Siga também a dica de Henrique Costa, e aproveite a oportunidade para interagir com a comunidade.

Saiba mais:

Site da Comunidade
http://www.santoandre-bahia.com/

Dolve Vita
http://dolcevita-santoandre.blogspot.com/

Rede Furada
http://redefurada.blogspot.com/

 

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