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O Paraíso Possível

A visão do Brasil pelos fotógrafos de moda

ARTES Brasil

O exaurido clichê do Brasil como “paraíso tropical” já foi cantado em samba-enredo, forró e rock. Praias, belos corpos, topless, samba, bossa-nova são alguns outros. No entanto, qualquer outra tentativa de construção de uma imagem alternativa do país, incentivada pela pujança industrial e interesses comerciais, parece não alterar o foco dos retratistas estrangeiros. Ainda que o desenvolvimento do Brasil como potência criativa e industrial tenha criado uma visão alternativa, a predileta dos fotógrafos pop e editores ainda é a da versão mais próxima do jardim do éden.

Em 2007, Mario Testino (um dos responsáveis pela criação do ícone Gisele Bündchen) agitou o mundo da moda e das celebridades quando desembarcou no país com sua comitiva para um famoso editorial sobre o Rio de Janeiro para a revista norte-americana Vanity Fair. Mas no final, o texto do ensaísta e jornalista inglês A. A. Gil, que acompanhou a reportagem luxuosa (com capa de, claro, Gisele), deixou o público da moda de cabelo em pé. Em uma de suas interpretações, o país apareceu como “um país de bundas”.

Polêmicas à parte, sai agora o livro MaRIO de Janeiro, do próprio Mario Testino. O fotógrafo chileno, que passou férias na cidade quando adolescente (além de voltar inúmeras vezes a trabalho quando adulto), resolveu prestar sua própria homenagem à cidade maravilhosa com uma coleção de fotos sensuais e exuberantes. “Eu tinha 14 anos, estava de férias e quando ia de minha casa para a praia não podia crer no que via, toda aquela gente, tão despreocupada e sensual”, explica o fotógrafo, que ainda interpreta a cidade sobre as mesmas lentes. Com prefácio de Caetano Veloso e introdução de Regina Casé, o livro tem entre os retratados os belíssimos corpos de Daniela Sarahyba, Isabeli Fontana, Fernanda Lima, Cauã Raymond e da própria Gisele Bündchen.

Também em 2007, Terry Richardson, conhecido pelas fotos irreverentes e provocantes, veio ao Brasil para registrar as imagens de Rio Cidade Maravilhosa, lançado no mesmo ano. Ali figuraram artistas globais como o próprio Cauã Raymond, Paulo Vilhena e Camila Pitanga, mas também Dercy Gonçalves e uma série de personagens não convencionais, como presidiárias e banhistas do piscinão de Ramos.

No entanto, essa visão está longe de ser uma versão pop de Tristes Trópicos (1955), do antropólogo francês Claude-Levis Strauss. Na realidade, o livro foi encomendado pela subsidiária brasileira da Diesel e lançado apenas no Brasil. A peça virou símbolo do prestígio e da força da indústria e mercado brasileiros – ainda que para uma grife estrangeira. Só em 2009, o fotógrafo norte-americano esteve no Brasil duas vezes clicando editoriais e catálogos de moda. Com a valorização da moeda e do mercado brasileiro de moda no mundo, será cada vez mais comum encontrar esses nomes por aqui.

Nessas circunstâncias, trechos de canções há muito conhecidas, como “”Aquarela do Brasil””, de Ari Barroso, ou “”Paraíso Tropical””, de Jorge Ben Jor, fazem coro com outro clichê que vem se fortalecendo. O da imagem de paraíso em tempos de crise financeira internacional. E seria difícil, para não dizer inapropriado, dizer o contrário.

O Paraíso Possível

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