São Paulo X

Diamantes de Sangue

As jóias de C.A.L.M.A. na Chapada

Stephan Doitschinoff
Andar pelas ruas de Lençóis e não conhecer as obras de CALMA é possível. É possível não conhecer algumas pessoas, muitas de suas cachoeiras, refúgios e passeios. Mas no centro da cidade sabe-se de tudo, encontra-se amigos em todas as partes; caminha-se, anda-se, exercita-se o olhar e os musculos sobre as pedras coloniais. Eu perguntei para algumas pessoas e todas sabiam dos “desenhos” de Stephan, mas não diziam seu nome e nem sabiam onde eles estavam.

Em uma empresa de viagem indicaram o restaurante de sua irmã para conseguir mais informações. No largo páteo onde estão uma loja do Boticário, uma academia, duas empresas de turismo, algumas lanhouses e três bares muitas pessoas comem, descansam ou apenas passam. O restaurante Cozinha Aberta, adepto do slow food também fica ali.

A indicação vale apenas pelo uso de ingredientes naturais, orgânicos ou silvestres, já que ali nos restaurantes da Chapada a comida é feita na hora mesmo – o que pode frustrar os órfãos do imediatismo dos serviços das capitais. Um dos originais de seus desenhos está na primeira sala do restaurante, pequeno, mas com uma ótima área nos fundos ciom vista para a rodoviária. O Goulash de Chocolate vem em uma generosa porção. Totalmente de acordo com as calorias queimadas nas caminhadas.

Mas a chef Deborah Doitschinoff ainda não havia chegado até o final da sobremesa: o delicioso sorvete e bolo de cardamomo com calda e bolo de chocolate. Tivemos mais sorte dois dias depois. Tímida, nos recomendou falar com o zelador do cemitério, que sabe onde estão alguns dos desenhos do irmão e tem sua própria casa enfeitada por um deles.

CALMA
Os desenhos evocam uma estranha visão da religiosidade. Muito de sua influência não é o grafite, declara, mas sim a arte sacra e pinturas alquímicas. Ainda assim, é difícil não desassociar suas gravuras da arte urbana, não pelo que vemos nas telas, talvez pela ligação com a Choque Cultural, galeria em São Paulo especializada em street art que o representa, mas certamente pelo instinto humano de rabiscar e desenhar, cutucar e cravar nomes em carteiras de colégio e bancos de igreja.

Stephan Doitschinoff ainda vive entre São Paulo e Lençóis. Sua obra, pintada nas paredes de casebres da pequena cidade do interior da Bahia, ganhou um minidocumentário e, em meados de 2009 e um livro, Calma – A obra de Stephan Doitschinoff. Cotados com o um dos principais nomes para a Bienal de Artes de Sâo Paulo de 2010,  ele conversou com a reportagem da Adoro Viagem por telefone. Não contou muito sobre as atrações turísticas da região, mas da reação emocionante das pessoas da comunidade sobre sua obra. “Foi a resposta mais intensa e violenta que eu recebi do meu trabalho, foi muito forte.”

Adoro Viagem – Onde você está morando agora? Em São Paulo ou Lençóis?
Stephan Doitschinoff – Na verdade, eu fiquei três anos fixos em Lençóis. Uns meses em 2005, quando iniciei meu trabalho lá. Um tempo depois, eu ganhei uma bolsa para uma residência artística na Inglaterra, onde fiquei por 8 meses. Voltei [ao Brasil] em 2006 e fiquei lá até o final de 2008. No Começo de 2009, eu vim para São Paulo porque estava rolando uma série de exposições. Mas eu ainda tenho uma perna lá.

Quando você começou a trabalhar em Lençóis, você já tinha a ideia de trabalhar nas fachadas das casas?
Na verdade, eu já vislumbrava fazer um trabalho de intervenção urbana, mas primeiro queria pesquisar a cultura e o folclore locais. Eu tinha vontade de trabalhar junto com os artesãos em Juazeiro, mas ficar naquela região sozinho é muito difícil, e minha irmã estava morando em Lençóis. Eu tinha ido em 2004, mas nem tinha ido ainda para as comunidades satélites, Remanso e Quilombo.

Aí quando eu fui, vi que ali eu poderia fazer e comecei a andar pelas áreas mais carentes. Eu já fui para Inglaterra já com isso em mente. Foram 8 meses num periodo de incubação, desenvolvendo o conceito na cabeça. Mas mesmo assim, já sabendo que deveria ter bastante paciência para lidar como o povo mais simples. Sabendo que é um casebre, mas que aquilo é a vida da pessoa. Sabendo que num casebre de 30 metros quadrados mora uma família de 12, 15 pessoas.

Como foi o impacto de uma arte urbana com uma comunidade praticamente rural?
Eu não sei se eu tenho essa pegada tão urbana, porque na verdade minha influência não é essa, é mais a arte sacra. São as referências que eu tomo para mim, arte sacra, literatura, cordel, gravuras alquímicas. Então aquilo já estava presente. Naquela região, acho que para muita gente o maior impacto que as pessoas têm é de eu estar ali fazendo alguma coisa, porque ninguém vai lá.

Os moradores são na maioria garimpeiros, a maioria veio do Quilombo do Remanso. Então, se tem uma pessoa que vai lá e fala “quero pintar a sua casa”, eles perguntam “É propaganda política? Vai pintar para quê, então? Eles perguntamse eu quero dinheiro e se não quero, para que? A pessoa não entende. É uma barreira.

Você precisou fazer alguma adaptação dos materiais utilizados para pintar as fachadas?
Tive, porque o ambiente não tinha nenhum material. Mesmo nas cidades próximas maiores não tinha, em Salvador não tinha, e eu adaptei alguns materiais. Por exemplo, ao invés de carvão artístico (para riscar os desenhos), acabei usando carvão de churrasco. Outra coisa, como não tinha spray nem tinta acrílica, então acabei pintando todos os murais com tinta látex e corante.

Você está em São Paulo trabalhando com outros meios e como vai ficar a sua história com Lençóis?
Eu não considero encerrada, mesmo porque (pausa) eu não sei o que eu vou fazer daqui para frente. Eu tenho uma exposição solo que eu estou trabalhando agora, depois disso tem uma exposição no museu de San Diego (Califórnia), em julho, e depois eu não sei o que eu vou fazer. Não está encerrado porque as paredes são muito mais orgânicas do que aqui, então nasce planta no meio do desenho.

Ou teve uma casa que era uma portinha, olhando era uma casa só, mas a portinha de uma casa a menina deixou pintar; a da direita, o dono do bar não gostou e aí caiou metade do desenho só e botou um pôster de uma cerveja local. Mas o pôster é pequeno em um desenho enorme, e como o cal que ele passou era bem aguado dá pra ver um pouco do desenho por baixo. Em outra casa uma senhora ficou com medo do desenho e pintou por cima também.

Como trabalhar com essas comunidades bem religiosas influenciou sua própria religiosidade?
Eu sempre convivi com religiosidade. Meu pai era pastor evangélico, meu pai e minha mãe dirigiam a igreja e  também um acampamento onde eu passava as férias. Minha bisa era uma espírita mediúnica superfamoa. Eu cresci num caldeirão. Na minha rua, na frente de casa tinha um centro hare krishna. Então, para mim era normal, ainda é.

Mas quando veio o interesse pela religião em si?
Quando eu cheguei a uma certa idade, aos 14 anos meus pais se divorciaram, minha mãe ficou mais liberal e eu parei de ir à igreja. Eu comecei a ler sobre anarquismo, comunismo, tinha banda punk, passei a estudar sobre controle de massas da religião, estudei psicologia. No final da adolescência, eu estudava o fanatismo na psique humana, como influência o individuo e o coletivo.

E assim eu conduzi meu trabalho esteticamente e conceitualmente. Até por isso, eu fui atrás de desenvolver esse projeto dessa instalação em um lugar bem religioso. Eu acho que é muito gratificante para um artista estar em um lugar onde tem uma reação tão intensa do povo, porque aqui é tudo muito morno.

Qual a diferença entre a reação dos moradores de uma cidade como Lençóis e dos moradores de uma cidade como São Paulo quando veem seu trabalho?
A reação mais intensa que você consegue é a censura, mas daí não é a reação de um ser humano. Em Lençóis tive a reação intensa. Por exemplo, eu reformei uma capela e pintei todos os que seriam os afrescos no que seria uma capela de Santa Luzia. E eu via senhoras rezando o terço olhando para as santas que eu pintei. Isso me emocionou bastante, e foi a resposta mais intensa e violenta que eu recebi do meu trabalho, foi muito forte.

E qual foi a reação mais extrema?
Do outro lado da cidade, no Alto da Estrela, eu pintei um mural e apedrejaram, eu não cheguei a ver, mas os vizinhos me contaram que as pessoas de uma igreja evangélica apedrejaram e xingaram de capeta, belzebu, sei lá. Então tem uma coisa muito forte de superstição.

Eu chamo mais de superstição do que religião e religiosidade. Porque o religioso é aquele que acredita e segue principalmente, por exemplo o religioso cristão imita cristo, então ele não vai xingar, cuspir ou apedrejar. Tem muito fundamentalismo e pensamento de grupo nesse ato, mas se você for procurar na Bíblia, no velho testamento, tinha muito sacrifício, apedrejamento mesmo.

Quais os passeios que você mais gosta na Chapada?
Eu fui em uns lugares onde têm umas cavernas, no rio Lapão, que tem umas coisas bem únicas, e um dos únicos lugares do mundo onde tem a estalactite que não é vertical, ela é horizontal devido ao vento. Talvez nem tenha esse nome (chama-se Flor de Aragonita)Tem na diagonal umas flores de cristal que nascem, sabe, e durante o tempo que estava lá, visitei muitas vezes.

Diamantes de Sangue

Comentários

Comentários

Sobre o Autor

adoroviagem

Adicionar Comentário

Dê sua opnião

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *